Linha Quebrada e Palavra Mágica

7 03 2011

Olá a todos/as.

         Com muito interesse já lemos os contos “Linha Quebrada” e “Palavra Mágica” de Virgílio Ferreira, havendo ambos, pela particular ironia, sentido de humor, sóbrio realismo e acutilante sarcasmo do autor, que é um dos que não se pode afirmar conhecer a contemporânea literatura portuguesa sem antes haver lido uma única obra sua que seja, causado um muito agradável impacto nos integrantes das nossas reuniões. Em “Linha Quebrada” temos o alvorecer e o conturbado devir de uma “nova” ordem politica, baseada em velhos métodos de uniformização ideológica e de estabilização de expectativas sociais conhecidas de todos, manifestando, desde início, a face de uma organização politica ditatorial, de ideologia fácil e demagógica como todas as demais de base impulsiva, presa à inspiração, mais ou menos lunática, do <<homem do centro>>, Casimiro.        Baseada em instantantâneos de inspiração de um putativo iluminado, esta nova ordem para cuja manutenção sempre seriam necessárias umas novas forças de polícia secreta, uma interna e outra externa  obviamente, “bufos” e verdugos, amplas cadeias com também amplas portas, muros, e pequenas janelas e, claro, um aparelho que tudo coordene e legítime: o costume; prospera até que algo tão fútil como o reconhecimento de credenciais a um embaixador estrangeiro, deita tudo a perder. Não será necessário dizer que este cenário político, excluindo o fundamento, é algo que recordamos, com muita sorte, actualmente,  à distância de um par de décadas  ou de um par de centenas de quilómetros em terras estrangeiras. Um “fuhrer”, uma máquina de estandarização, lavagem e censura do pensamento crítico-ideológico, uma pseudo-ameaça, que deve ser necessariamente externa e permanente, ou interna mas também permanente, nutrida de maquiavélico apoio “moral” e financeiro externo, e zás! Fez-se a ditadura e o ditador, acto seguido, cortem-se o vinho e as vinhas, que naquele está o mal e nesta a raiz do veneno implantado por sórdido inimigo que prepara a invasão. Os americanos, provavelmente… . Finalmente, depois de encontradas ponderáveis justificações económicas e de trato internacional, cai o sistema, mas não Casimiro que se adapta à nova era onde o vinho, a vinha e o vício são de novo reabilitados, para o bem da nação e da tranquilidade internacional. Veja-se que todas as fobias têm um quid, e nesta, o vinho e a vinha felizmente… .

      Em “Palavra Mágica” uma condição de incapacidade colectiva de acordo e tranquilidade convivencial, procedendo-se a permanentes e profundas agressões a valores fundamentais do contrato de agregação social – a saber: igualdade, liberdade, fraternidade, leva-nos ao seio das relações inter-humanas. O  enfoque é igualmente sarcástico e divertido; o das relações sociais num pequeno meio rural, transferível, por óbvia facilidade  de generalização, às mais diversas, amplas e complexas teias de relacionamento social das sociedades actuais. O homem é naturalmente mau? Questão filosófica ancestral que me ultrapassa, diria que, para o que nos concerne, no conto, o vocábulo inóquo satisfaz uma fundamental necessidade de, na total ausência do adequado poder assertivo, resolver agredindo sem agredir, causando o mínimo dano possível à tranquilidade e ordem públicas. Se em nosso conto a arma era de todo inadequada a inflingir os danos projectados, detecta-se uma clara intenção de realizar o fim, a agressão, e uma raiva, fundamento determinante, que se atenua depois do arremesso da pseudo-ofensa. <<Inoque>> e ficamos todos em tolerável “pacífico” convivio. Repõe-se a paz social sem esforço ou desforço maior. Outros conhecimentos, outros meios, outras guerras, outras baixas. Penso ser esta a ideia fundamental que transmite. Perante a incapacidade de controlar a má-fé, própria e alheia, o melhor será causar o mínimo dano à pessoa física e moral que aparentemente nos ataca; ataca, porque nós “raramente ou nunca” atacamos. ”Salve-se o inóquo para nos salvarmos” – argumentava o jurista. Mantenha-se a menos letal arma de todo o arsenal agressivo que pode possuir uma comunidade: Inóquo.

 Até já,

Jorge da veiga

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29 03 2011
Margarita

Gracias Jorge, por traernos estos cuentos tan interesantes, profundos a la vez que amenos. Nos estás acercando a la lengua Portuguesa y en mi caso, cada vez la aprecio más.
Siento no escribir en portugués, pero todavía no soy capaz.
Un saludo, Margarita

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